10.11.06

Poesia Marginal.

Hoje, conversando com um grande amigo (virtualmente) sobre coisas do vestibular (que eu de verdade estou super por fora), surgiu um assunto interessante. Ele me perguntou se eu gostava de poesia marginal e eu respondi que já tinha ouvido falar mas nunca tinha lido ou ao menos sabido de algo relacionado a isso. Então ele me passou o nome de dois desses poetas e lá fui eu ver do que se tratava. Ele falou do Paulo Leminsk e do Torquato Neto. Desse último, não consegui ler nada visto que a música do seu site não me agradou e as coisas eram tão modernas que se tornaram confusas, ainda mais que estou com febre e com a mínima paciência pra algumas coisas.

Na verdade, a poesia marginal apareceu nos anos 70, época de grande repressão, e ela rompia com a realidade, com o intelectualismo e era diluidora, marginal.Esses ideais eram passados de mão em mão em forma de folhetos, jornais e revistas, chegando às praças, aos muros como uma forma de manifestação político-social e de mudanças. Além de ser uma alternativa, a Marginalidade ameaçava o sistema, possibilitando a ação, a agressão e a transgressão. O uso de drogas, a sexualidade que foge aos padrões vigentes, o comportamento "exótico" são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e então sentidos como uma forma de contestação política. Na verdade, a fuga dos padrões impostos são tipos de contestação, quando feitos de maneira consciente e inteligente. E o Paulo Leminsk, um desses Marginais, escreveu coisas que me deixaram apaixonado. Na verdade, ainda não conheço muita coisa das poesias marginais, mas do que eu conheço, posso dizer que ele diz muito o que eu quero ouvir. E umas das coisas que eu muito gostei foram essas:

1- Um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante

carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa um milhão de dólares

ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra .

2- A estrela cadente

me caiu ainda quente

na palma da mão.

3- Para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas

na cova comum dos idealistas

onde jazem aqueles

que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração

na beira do rio

onde o joelho ferido

tocou a pedra da paixão.

4- En la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

moches

poemas .

5- Eu queria tanto

ser um poeta maldito

a massa sofrendo

enquanto eu profundo medito

eu queria tanto

ser um poeta social

rosto queimado

pelo hálito das multidões

em vez

olha eu aqui

pondo sal

nesta sopa rala

que mal vai dar para dois.

6- Podem ficar com a realidade

esse baixo astral

em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade

eu fico com o cinema americano.

7- O novo

não me choca mais

nada de novo

sob o sol

apenas o mesmo

ovo de sempre

choca o mesmo novo .

8- Moinho de versos

movido a vento

em noites de boemia

vai vir o dia

quando tudo que eu diga

seja poesia .

9- Amor ,então ,

também acaba?

Não que eu saiba.

O que eu sei

é que se transforma

numa matéria-prima

que a vida se encarrega

de transformar em raiva.

Ou em rima.

10- Duas folhas na sandália

o outono

também quer andar.

As poesias marginais de Leminsk são simples, contestadoras, pequenas frases que expressam muito mais que qualquer romance. O melhor de tudo é quando o texto se transforma em discurso e você, de verdade, entende. Os Lusíadas, A Moreninha, Os Sertões... até acredito que sejam obras belíssimas. Mas nunca se transformaram em discurso pra mim. Quem sabe um dia eu não me interesse?

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

meu trabalho de literatura está pronto! rsrsrs

ta legal seu site ^^

jessicabezgom@yahoo.com.br

abraço

6:55 PM  

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